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Saturday, September 24, 2011
Pela derrota de EUA e Israel na ONU!
por RONALD LEÓN, DA LIT-QI (Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional)
A luta histórica do povo palestino contra o Estado nazista-sionista de Israel, que é parte central da luta de todos os povos do mundo contra a dominação imperialista de conjunto, novamente se encontra no centro da polêmica mundial.
O atual líder da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmud Abbas, apresentou no dia 23 de setembro, diante o Conselho de Segurança da ONU uma demanda para o reconhecimento oficial da Palestina como Estado independente, com plenos e idênticos direitos de todas as demais nações. Este status lhe permitiria, por exemplo, denunciar perante a justiça internacional a ocupação de seus territórios por forças sionistas. Na atualidade a Palestina tem, dentro da ONU, um status que não é de Estado, mas sim de entidade “observadora permanente”.
Essa proposta defendida pelas autoridades palestinas encontra grande simpatia e expectativa não só no mundo árabe, mas também no conjunto da esquerda e do ativismo mundial. No entanto, é preciso colocar com clareza que essa proposta, além de ser escandalosamente limitada, abandona as reivindicações históricas do povo palestino. A proposta de Abbas à ONU propõe conformar um “mini-Estado” palestino cujas fronteiras serão anteriores a de 1967, e com um território compreendido por Gaza, Cisjordânia e a parte de Jerusalém, como capital. Ou seja, é, de fato, uma capitulação a Israel, pois legitima o roubo dos territórios palestinos que usurparam os sionistas em 1948. Segundo publicações da rede de TV Al Jazeera, o presidente Abbas aceitou condições como a permanência dos colonos israelenses que ocupam Cisjordânia, e que esse novo Estado palestino não possua Forças Armadas próprias. Aceitou que até uma força militar da OTAN (Aliança Militar do Atlântico Norte) seja colocada no seu território.
Outro elemento importante, é que Abbas só faz essa proposta neste momento devido à impressionante pressão do processo revolucionário que sacode ao mundo árabe, historicamente simpatizante da causa palestina. Basta ver a recente manifestação contra a embaixada de Israel no Egito.
No entanto, apesar de todas as limitações que tem a reivindicação de Abbas, o imperialismo norte-americano e obviamente Israel se opõem categoricamente à proposta. Barak Obama já anunciou que os EUA recusarão a ideia de um Estado independente palestino e que, se for necessário, farão valer seu direito ao veto. O presidente norte-americano declarou ainda, de forma enganosa, que a "paz não chegará mediante declarações e resoluções na ONU (…). Em último caso, são os israelenses e os palestinos, e não nós, os que devem chegar a um acordo sobre as questões que lhes dividem: as fronteiras e a segurança, os refugiados e Jerusalém”.
Com sua acostumada hipocrisia, acrescentou, ao mesmo tempo, que ambos os setores têm “aspirações legítimas". No mesmo sentido, o próprio Abbas declarou e chamou Israel a que reconheça um Estado palestino e não a "perder a oportunidade para a paz".
Nós, da LIT-QI, não mudamos absolutamente em nada nossa posição histórica, que parte da necessidade da destruição do Estado nazista-sionista de Israel como condição indispensável para que exista paz na região. Reivindicamos uma Palestina livre, laica, democrática e não racista. Nunca haverá paz enquanto exista o Estado genocida de Israel, na medida em este é um enclave, um estado Policial dos interesses imperialistas na região. Também não mudamos nossa caracterização sobre a direção política palestina atual: a ANP é uma direção absolutamente entreguista e que trai as bandeiras históricas de seu povo.
Por tudo isso não pode existir e nem conviver “pacificamente” dois Estados. Israel nasceu como um instrumento da contrarrevolução no Oriente Médio. Foi concebido e sustentado pelas potências imperialistas e Stalin. Nós não confiamos de forma alguma na ONU. Sabemos que as decisões votadas nesse espaço nunca poderão servir como solução de fundo para a questão palestina. Tanto é aasim, que a ONU (que hoje pretende atuar como juiz supremo para conceder ou não o direito dos palestinos a ter um Estado) foi a que dividiu Palestina em novembro de 1947, lhe roubando o 54% de seu território em favor de Israel. Nessa época, foram expulsos de suas terras ancestrais mais de 700 mil palestinos, suportando uma série de ofensivas assassinas, no qual o novo Estado nazista-sionista arrasava e massacrava populações inteiras em seu afã de se consolidar. Desde então, o povo palestino vive confinado em campos de refugiados em Gaza, Cisjordânia, Líbano, Síria e em outras dezenas de outros países.
Estamos pelo voto favorável ao novo Estado palestino
Nós da LIT-QI estamos pela derrota da posição dos EUA e de Israel nesta votação que se realizará na ONU. Nossa posição parte de um momento em que ocorrerá uma votação sobre uma questão muito concreta (o reconhecimento ou não o novo Estado palestino). O imperialismo está negando a Palestina os direitos básicos que têm outras nações. O direito a um Estado independente palestino pode está gerando uma série de mobilizações na Palestina e em outros pontos do mundo árabe. Por isso, nos posicionamos pelo direito democrático e pela derrota do imperialismo ianque e de Israel nessa votação. Isto não significa, porém, que concordemos com a proposta de Abbas. No entanto, é claro que uma derrota do imperialismo e do sionismo nessa votação, fortaleceria o processo revolucionário árabe e enfraqueceria Israel, muito questionado na região.
Israel, em razão dos golpes da revolução árabe, encontra-se a cada vez mais isolado. Recebeu golpes no Egito, que se expressou no episódio da embaixada israelense; outro com o afastamento da Turquia, que antes era um de seus principais aliados na área; e outro na Jordânia. Esses golpes colocaram Israel em uma situação complexa. A tarefa é, por meio das mobilizações a nível internacional e nacional, isolar o Estado sionista cada vez mais. Sabemos que a solução real e a satisfação às reivindicações palestinas não passam pelas negociações, nem ao menos pela ONU. No entanto, podemos aproveitar o fato de que se esteja discutindo a questão para gerar ou potencializar processos de mobilização, além de redobrar esforços na campanha contra Israel.
É nesse marco que devemos seguir impulsionando a campanha mundial de boicote e pelas sanções contra Israel à qual se somaram inúmeras organizações palestinas e não palestinas, desde 2005. Apesar de seus limites, ao não propor a destruição do Estado de Israel, a campanha coloca objetivos muito progressivos, como o direito de retorno para todos os refugiados palestinos e o fim de todas as agressões israelenses e do bloqueio a Gaza. Ademais, é imperioso exigir em todos os países a ruptura de relações diplomáticas e comerciais com os sionistas.
Não obstante, insistimos e seguimos sustentando que a única maneira de defender realmente os direitos do povo palestino é lutar pela bandeira original da antiga OLP (Organização para a Libertação da Palestina): a luta pela destruição do Estado de Israel e a construção de um Estado Palestino laico, democrático e não racista, em todo o território de Palestina.
Labels: imperialismo, Lit, palestina, sionismo
Thursday, May 19, 2011
É preciso chamar as coisas pelo seu nome: o que Chávez fez é entrega e traição
Escrito por Bernardo Cerdeira
Os fatos são bem conhecidos: há alguns dias, o governo venezuelano deteve e deportou para a Colômbia o jornalista colombiano Javier Pérez Becerra, diretor da agência de notícias ANCOLL.
No momento da prisão, o governo emitiu um comunicado onde justificou sua ação alegando que Pérez era procurado pela Interpol e haveria uma “circular vermelha” acusando seus delitos relacionados com a guerrilha colombiana (“conspiração, financiamento do terrorismo e administração de recursos relacionados com atividades terroristas”).
O governo do presidente Chávez aceitou a acusação feita pelo governo colombiano de que Pérez Becerra é o “dirigente da frente internacional das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) na Europa” e culpado de múltiplos atos de terrorismo e o entregou em menos de dois dias, sem lhe dar sequer o direito de defender-se perante a justiça venezuelana.
Este episódio é um marco na política do governo Chávez para os militantes de esquerda procurados por regimes repressivos. Joaquín Pérez Becerra era um refugiado político na Suécia, país que lhe concedeu asilo após conseguir fugir da Colômbia como sobrevivente do massacre de mais de cinco mil militantes da União Patriótica. Há dez anos, concederam-lhe a cidadania sueca e ele optou por abrir mão da cidadania colombiana.
A deportação provocou indignação entre militantes de esquerda de todo o mundo, muitos deles “chavistas” ou simpatizantes do governo Chávez. A indignação é justíssima e necessária. Mas é preciso ir além destas primeiras reações. Se quisermos extrair as lições deste episódio, é necessário buscar as relações profundas que explicam esta repugnante ação do governo Chávez.
Entregar um refugiado político a um regime ditatorial viola qualquer princípio democrático
O regime colombiano é conhecido em todo o mundo pelas mais graves violações dos direitos humanos. Segundo denúncias de numerosas organizações não governamentais, há mais de 50 mil desaparecidos na guerra desencadeada pelas Forças Armadas e os grupos paramilitares.
Há também mais de mil casos de “falsos positivos”, civis assassinados pelo exército e depois vestidos como guerrilheiros para figurar como “baixas” do inimigo e assim contar “pontos” para os batalhões do exército. E nos referimos somente aos casos reconhecidos pelas Forças Armadas e pelo próprio regime.
Nesta sinistra atividade repressiva contrarrevolucionária, o regime colombiano conta com o apoio militar, treinamento e logística do imperialismo ianque, fornecidos no marco do Plano Colômbia.
Portanto, entregar refugiados políticos a este governo e seu regime assassino é entregá-los a um estado paramilitar, fantoche do imperialismo, e condená-los à tortura, anos de prisão e, talvez, à morte. Ao entregar um refugiado político a um estado que não vai garantir a sua integridade física nem seu direito democrático de defesa, o governo venezuelano viola os princípios democráticos mais elementares e se transforma em cúmplice do governo de Santos e do imperialismo.
E nesse ponto é preciso esclarecer uma coisa. Não estamos falando de princípios revolucionários, nem de princípios comuns à esquerda, já que não podemos exigir de Chávez o que ele nunca teve. O que estamos dizendo é que o governo venezuelano abandonou os mais mínimos princípios democráticos, tais como o asilo político e o direito de defesa. Portanto, é necessário chamar as coisas pelo seu nome: trata-se de uma enorme traição.
Chávez é o responsável direto pela entrega
Antes de qualquer coisa, é necessário dizer que este episódio também serviu para desmascarar o velho conto de que Chávez se “equivoca” porque está mal assessorado e rodeado de corruptos, mas se mantém “íntegro”.
O próprio Chávez encarregou-se de desmentir isso. Perante a indignação de setores que o apoiam e acusavam somente o ministro de Relações Exteriores, Nicolás Maduro, e o ministro de Informação, Andrés Ivarra, Chávez deixou claro que a responsabilidade pela entrega de Pérez Becerra era totalmente sua. No ato que reuniu a direção do PSUV (Partido Socialista Unido de Venezuela) no Teatro Teresa Carreño, ele disse várias vezes, e de forma provocativa, “queimem a mim”, e afirmou que não aceitava que o “chantageassem”:
“Eu vi aí uns dos senhores que estavam queimando (o boneco com o rosto de) Nicolás, em vez de queimarem a mim, por que não me queimam? Ponham a minha cara no boneco porque eu sou o responsável, não Nicolas. Nicolás cumpriu uma ordem. Tarek El Aissami (ministro do Interior e Justiça) cumpriu uma ordem minha, porque eu tomo as decisões e assumo minhas responsabilidades. Aqui não irão me chantagear”, disse Chávez.
Além disso, insistiu em deixar claro que a ordem de deportação veio dele, repetindo a estória da solicitação da Interpol: “Eu respeito seus critérios (dos manifestantes), mas me respeitem, e não queimem os meus ministros, queimem a mim porque sou o responsável por ter enviado este senhor ao governo da Colômbia, eu dei a ordem porque ele era procurado pela Interpol”.
Chávez mente
No mesmo discurso, Chávez tentou responsabilizar ainda o governo da Suécia, as pessoas que convidaram Pérez Becerra para ir à Venezuela, e até o próprio Pérez Becerra, por deixá-lo com uma “batata quente” nas mãos que o obrigou a tomar a decisão de deportar o refugiado político:
“Por que o senhor Pérez pegou um avião lá na Suécia, para sair da Suécia, se ele era procurado, como era, pela Interpol com código vermelho? Por que o deixaram sair da Suécia? Quem o convidou para vir à Venezuela? (...) Esse senhor desceu de um avião, fez conexão. Por que não o detiveram na Alemanha? Não tenho a menor dúvida de que o plantaram aqui para deixar-nos com uma batata quente, de modo que se eu o pego sou mau e se não o pego também sou mau. Cumpri minha responsabilidade e o capturamos e ele está lá, que ele assuma sua responsabilidade. (Pérez Becerra) também deveria dizer quem o convidou para vir para cá, quem o colocou na armadilha, porque o colocaram em uma armadilha, trouxeram-no para cá e o estavam caçando, todo o mundo sabia, a CIA, a Interpol, sabiam até o que ele comeu no avião. Infiltrados, são movimentos infiltrados até a medula.”
Chávez mente conscientemente. Em nenhum momento foi obrigado a entregar Pérez Becerra ao governo colombiano. Se considerava que sua estadia na Venezuela traria problemas ao Estado venezuelano, poderia tê-lo devolvido à Suécia, país onde ele vive e tem cidadania.
A verdade é que a vergonhosa e traidora entrega de Pérez Becerra responde não à suposta circular da Interpol, mas a um pedido do presidente Juan Santos da Colômbia. Isso foi deixado claro pelo próprio Santos em uma declaração ao jornal El Tiempo de Bogotá: “No sábado, liguei para o presidente Chávez e disse a ele que um sujeito das FARC muito importante para nós chegaria em um voo da Lufthansa naquela tarde a Caracas e se podiam detê-lo. Ele não titubeou. Mandou capturá-lo e vai entregá-lo para nós.” Chávez nunca desmentiu esta declaração.
Uma política consciente de colaboração com Santos, com o imperialismo, com a Interpol e a CIA
Esta não é a primeira vez que Chávez entrega supostos guerrilheiros ao governo da Colômbia. A política de colaboração com o regime colombiano e o imperialismo já existe há muito tempo. Nos primeiros quatro meses e meio de 2009, a Venezuela extraditou 15 supostos guerrilheiros do ELN (Exército de Libertação Nacional). No início de maio, foram extraditados Carlos Emiro Bustamante Rincón, Diego Armando Pérez Medina, Yaneth Fernández, Benjamín Terán e Gregoria Monterrosa.
Esta colaboração incrementou-se após a eleição e posse de Santos, a partir de meados do ano passado. Em novembro de 2010, Chávez extraditou Osvaldo Espinoza, suposto militante das FARC-EP, e Priscilla Ayala e Nelson Navarro, supostos guerrilheiros do ELN. Em janeiro deste ano, extraditou Nilson Terán Ferreira, suposto líder do ELN. No fim de março, deportou dois supostos membros do ELN, Carlos Atirado e Carlos Pérez.
Trata-se, portanto, de uma política consciente e sistemática. As razões podem ser encontradas tanto na situação interna da Venezuela, que vive uma crise econômica que debilita o governo, como no plano externo, em que as pressões do imperialismo aumentam. A colaboração com o governo da Colômbia aparece como uma solução para Chávez, tanto no terreno econômico (ao voltar a aumentar o comércio entre os dois países) como no plano externo, ao aliviar a pressão do imperialismo.
Tudo isso, é claro, à custa de entregar militantes de esquerda e lutadores populares, reprimir e criminalizar as lutas sociais, atacar a autonomia sindical e aumentar as medidas autoritárias do governo.
É necessário acrescentar que o dano político que Chávez causa aos trabalhadores e aos povos latino-americanos é ainda pior, pois justifica sua colaboração com a mesma ideologia utilizada pelo imperialismo, cobrindo suas costas e a hipocrisia de sua política. Por exemplo, a nota do governo sobre a deportação de Pérez Becerra afirmava: “O Governo Bolivariano ratifica assim seu compromisso inquebrantável na luta contra o terrorismo, a delinquência e o crime organizado, em estrito cumprimento dos compromissos e da cooperação internacional, sob os princípios de paz, solidariedade e respeito aos direitos humanos.” O cinismo mais descarado é falar de “paz, solidariedade e respeito aos direitos humanos” quando entrega um refugiado político a um governo criminoso e violador desses mesmos direitos.
A traição mais vergonhosa
Nós, da LIT, nunca pensamos que Chávez fosse um revolucionário nem sequer um “socialista”, e sempre criticamos seu governo antidemocrático e bonapartista. Então por que dizemos que Chávez trai? Porque sua traição é contra as massas que acreditaram nele todos esses anos. Por isso, seu crime político é profundo.
Chávez trai os milhões que viam nele um líder e um governante que enfrentava o imperialismo ianque. Trai as massas colombianas que acreditavam que ele enfrentaria os governos autoritários de Uribe e Santos. Trai centenas de milhares de honestos ativistas de esquerda de todo o mundo que acreditaram sinceramente que Chávez, pela via de um processo revolucionário, conduziria a Venezuela ao socialismo. Referimo-nos, evidentemente, aos sinceros ativistas de esquerda e não aos burocratas corruptos do PSUV e às organizações estalinistas da América Latina e de todo o mundo.
Os fatos confirmam: o governo Chávez não tem nada de revolucionário ou socialista
Muitos falam de um “giro à direita” de Chávez. É verdade que há um giro político à direita. Mas é porque Chávez abandona seu discurso de esquerda, não porque o Chávez atual seja, em essência, diferente do que sempre foi.
Sua política atual não nos surpreende. Ao contrário, confirma o que sempre dissemos: que Chávez, longe de ser um governo dos trabalhadores, revolucionário e socialista, é um governo burguês que teve, às vezes, um discurso nacionalista e anti-imperialista e que tomou algumas atitudes progressivas, como as nacionalizações. Mas sempre sem romper com o sistema capitalista e defendendo sua manutenção. Pior ainda, com um viés marcadamente autoritário contra os trabalhadores e suas organizações.
Muitos falam que Chávez está pressionado e teria cedido por “razões de Estado” para permanecer no poder ante as pressões do imperialismo e seu fantoche, o regime colombiano. Pode ser que seja verdade. Mas, em todo caso, são as “razões de Estado” de um líder burguês que quer permanecer no poder em um Estado burguês.
Seu objetivo é manter o capitalismo, e suas medidas, por mais progressivas que sejam em algum momento, têm sempre como objetivo manter este sistema. Assim, Chávez segue a mesma trajetória de muitos dirigentes burgueses de países explorados que muitas vezes radicalizam seu discurso antiimperialista, falam de “revolução” e “socialismo”, mas, no final, acabam capitulando ao imperialismo. Nisso, o caminho que Chávez tomou em sua colaboração com Santos se parece cada vez mais com a trajetória de Kadafi, que passou de “revolucionário”, nos anos setenta, a fiel amigo dos imperialismos francês, italiano e inclusive ianque, no século XXI.
Chávez pode retificar o seu curso?
Alguns apoiadores de Chávez admitem que o presidente se equivocou gravemente. Mas opinam que o caso de Pérez Becerra é um “fato isolado” que não chega a manchar o que seu governo fez de positivo. Por isso, pedem que “retifique” e corrija este erro.
Já explicamos extensamente a importância deste episódio, no contexto de uma política geral consciente dirigida ao governo colombiano e o imperialismo. Mas queremos contestar também o tema da “retificação”.
Em primeiro lugar, é necessário questionar se isto é possível e, se for, o que Chávez deveria dizer e fazer? Deveria dizer, por exemplo: “Eu me equivoquei e entreguei militantes de esquerda ao governo Santos, colaborei com ele e com o imperialismo, mas me arrependo, peço perdão às massas do mundo e não voltarei a fazer isso”? Imaginar que isso seja possível já seria um delírio. De todo modo, está claro que semelhante autocrítica de um indivíduo que tenha colaborado com os órgãos de repressão não mereceria de ninguém a menor confiança. Porém, é impossível uma mudança real desta natureza de parte do governante de um Estado. Sob determinadas circunstâncias extremas, um indivíduo até pode mudar e eventualmente romper com sua classe. Os governos, ao contrário, sempre têm um caráter de classe e respondem a ele.
Decisões como colaborar com os órgãos de repressão do imperialismo e seus fantoches têm a ver com essas determinações de classe. As violações dos princípios democráticos mais elementares são uma mostra de quão longe Chávez pode chegar para se manter no poder e defender o Estado burguês. Não há volta, não há retificação possível. O próprio Chávez dá mostras disso quando, longe de “retificar”, reafirma suas decisões e sua política traidora de entregador.
A conclusão é clara: a política, a prática e todo o rumo atual de Chávez e seu governo mostram não só seu profundo caráter de classe, mas sua tendência para a direita.
Para que a revolução venezuelana avance é necessário construir uma alternativa independente
A grave confusão em que se encontram milhares de ativistas de esquerda tem como origem o fato de identificar o processo revolucionário venezuelano com Chávez e seu governo.
O processo revolucionário na Venezuela vive e se alimenta da ação das massas trabalhadoras e populares. São elas as que, desde o “Caracazo”, em 1989, vêm protagonizando os momentos mais importantes da história recente do país. Foram elas que lutaram e derrotaram a oligarquia, o imperialismo e a direita “esquálida” e golpista.
Nessa luta heroica, muitas vezes defenderam o próprio Chávez quando este se viu ameaçado pelos setores mais contrarrevolucionários da burguesia. Foi o caso da fracassada tentativa de golpe em 2002; do “lockout” e a paralisação da PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A.) e o plebiscitoconvocado pela direita.
O governo Chávez, cada vez mais, coloca-se contra essas mesmas massas com medidas antioperárias, com ataques sistemáticos à liberdade de organização sindical e às liberdades democráticas em geral. E, agora, com sua capitulação ao governo da Colômbia e ao imperialismo.
Esses milhares de ativistas da esquerda latino-americana que apoiam a luta dos trabalhadores e do povo venezuelano estão agora diante de uma disjuntiva. Defender a revolução venezuelana não é o mesmo que defender Chávez e sua burocracia corrupta do PSUV. Hoje, isso significa, ao contrário, diferenciar-se dele, denunciá-lo e combater seu governo. Só assim a revolução poderá avançar.
A grande tarefa para os honestos militantes de esquerda, na Venezuela e na América Latina, é construir uma direção política e sindical classista, verdadeiramente revolucionária e socialista. Isto é, independente da burguesia, da oligarquia, do imperialismo, mas também do chavismo. Este é o desafio.
Tradução: Érika Andreassy
Labels: BECERRA, CHAVISMO, Hugo Chávez, Lit
Friday, April 29, 2011
O texto é longo mais vale à pena ser lido. É de uma declaração de autoria da Liga Internacional dos Trabalhadores, organização da qual faço parte enquanto militante político internacionalista.
Adriano
PRIMEIRO DE MAIO: A luta operária, internacional e socialista é mais atual que nunca
Primeiro de Maio nasceu já faz mais de 120 anos, como uma homenagem aos chamados Mártires de Chicago, nos Estados Unidos, julgados e condenados à morte por liderar uma luta contra a exploração capitalista. Desde 1889, considerou-se que a melhor forma de expressar essa homenagem seria realizar todo ano, nesta data, um dia internacional de luta pelas reivindicações da classe operária. Naquela época, foi assumido como eixo central a luta para conquistar a jornada de 8 horas de trabalho.
Desde então, a burguesia tentou, primeiro, apagar a data da memória dos trabalhadores e, depois, como não obteve êxito, procurou tirar o seu conteúdo de luta e transformá-la em um inofensivo “dia de festa”. A partir da década de 1990, este objetivo acentuou-se com uma campanha ideológica que anunciava estrondosamente o triunfo do “capitalismo sobre o socialismo” e o fim da “luta de classes”.
No entanto, como poucas vezes nos últimos anos, neste Primeiro de Maio, uma realidade mundial de luta dos trabalhadores e dos povos, em diversas regiões, mostra-nos que a luta de classes está mais presente que nunca, assim como suas perspectivas revolucionárias internacionais.
A revolução árabe
No mundo árabe, assistimos hoje uma das ondas de ascensão revolucionária de massas mais importante de sua história moderna, que o converteu no epicentro da situação mundial. Iniciou-se na Tunísia e teve continuidade no Egito, e não há praticamente nenhum país dessa região que não seja afetado por alguma de suas manifestações. Essa onda já derrubou dois ditadores (Ben Ali na Tunísia e Hosni Mubarak no Egito) e ameaça todas as ditaduras e monarquias reacionárias da região, a maioria delas agente do imperialismo. Chegou inclusive à Síria, onde o regime “dinástico” dos Assad ainda conserva alguma “aparência” de autonomia ante o imperialismo.
Por razões históricas e estruturais, essa onda revolucionária tende, de modo natural, a superar as fronteiras nacionais e a se estender e se unificar em todo o mundo árabe.
Olhando superficialmente, a atual onda da revolução árabe pode parecer só uma “luta pela democracia”. É verdade que o primeiro objetivo das massas é derrubar os odiados ditadores e seus regimes e obter plenas liberdades democráticas. Mas o seu conteúdo profundo é muito mais amplo, porque inclui resolver as gravíssimas condições dos trabalhadores e do povo e a necessidade de acabar com o saque imperialista e as oligarquias burguesas nacionais que geram essas condições de vida. E, como um elemento central, a necessidade de arrancar do coração do mundo árabe o punhal fincado que representam Israel e a tragédia do povo palestino.
As burguesias árabes “nacionalistas laicas” já mostraram que são incapazes de conseguir algum desses objetivos e que, cedo ou tarde, acabam se transformando em agentes do imperialismo contra a luta dos trabalhadores e do povo. As organizações islâmicas começam a mostrar isso, como se vê, por exemplo, nas posições políticas que a Irmandade Muçulmana teve ao longo de todo o processo egípcio (primeiro negociação com Mubarak e, agora, apoio ao governo do exército).
Afirmamos que, no mundo árabe, desenvolve-se uma “revolução socialista inconsciente” que, na luta pela democracia e pela libertação nacional, deve avançar necessariamente até a luta pelo socialismo. É socialista pelos inimigos que enfrenta (o imperialismo, Israel e as burguesias nacionais); porque as tarefas que deve implementar só podem ser realmente resolvidas derrotando o imperialismo e o capitalismo; e, finalmente, porque os seus protagonistas são os trabalhadores e o povo, os únicos que podem levar essa luta até o final.
Nesse sentido, o processo iniciado em 25 de janeiro de 2011 teve como antecedentes várias greves e lutas dos operários têxteis da cidade de Mahallah, no delta do Nilo. Inclusive, uma das organizações juvenis mais ativa nas mobilizações que derrubaram Mubarak se chamava “6 de Abril” porque se formou para aderir a uma dessas jornadas de luta.
Finalmente, a gota d’água na luta contra Mubarak e que acelerou sua queda foi a onda de greves dos últimos dias antes de 12 de fevereiro de 2011: operários têxteis de Mahallah, trabalhadores do Canal de Suez, trabalhadores da saúde, da educação, dos bancos e do transporte do Cairo etc.
Então, a grande tarefa atual é que esse “conteúdo operário e socialista” penetre na consciência das massas egípcias e árabes, e que essa consciência se expresse na continuidade de sua mobilização (superando as armadilhas e as ilusões da democracia burguesa) e em avanços na sua organização independente de qualquer variante burguesa. Especialmente, na construção de partidos operários revolucionários capazes de liderar a revolução até o final.
A luta na Europa
Cruzando o Mediterrâneo, os trabalhadores e a juventude europeias continuam a luta, iniciada em 2010, contra os duríssimos planos de ajuste que os governos (sejam da direita clássica ou de partidos social-democratas) e as patronais aplicam para fazer recair sobre os seus ombros o custo da crise econômica internacional e dos imensos pacotes de ajuda que deram aos bancos e ao parasitário sistema financeiro.
Em 2011, já houve uma nova greve geral na Grécia. No mês passado, uma imensa mobilização em Portugal, impulsionada pela juventude trabalhadora e estudantil, a chamada “geração à rasca” (geração perdida), foi o ponto mais alto da resposta social, que obrigou o governo do primeiro-ministro Sócrates a renunciar. Mais recentemente, centenas de milhares de pessoas se manifestaram em Londres contra os cortes no orçamento aplicados pelo governo conservador-liberal.
Aqui também a luta tende a tomar rapidamente um caráter internacional. Acordos como a União Europeia e a “zona euro” (os 16 países que adotaram o euro como moeda) mostram claramente o seu caráter de organizações imperialistas contra os trabalhadores, como fica evidente nos ferozes ajustes que devem ser feitos por governos como os de Portugal ou da Grécia para receber uma “ajuda” que só tem como objetivo salvar os bancos e aumentar ao máximo a exploração dos trabalhadores, liquidando antigas conquistas trabalhistas e precarizando benefícios, como a saúde e a educação públicas.
Em todos os casos, esses governos contam com a cumplicidade das burocracias sindicais que, inclusive quando se veem obrigadas a impulsionar lutas, atuam para dividir e frear os processos. De qualquer maneira, sua ação sempre está destinada a salvar esses regimes políticos, a UE e a zona euro. Se não fosse pelo papel dessas burocracias, muitos desses governos já teriam caído ou estariam para cair.
Além disso, devido à ação das burocracias, os trabalhadores de cada país tiveram que sair à luta contra as mesmas medidas impostas pelo imperialismo, mas o fizeram separadamente, cada um por sua conta. Embora os inimigos fossem os mesmos e os planos de fome impostos a partir do mesmo padrão da União Europeia, a política das burocracias sindicais foi isolar uma luta das outras. Por isso, na Europa, é necessária a construção de uma alternativa classista perante os governos e que unifique a luta contra a burocracia em cada país e a luta da classe operária europeia em seu conjunto.
Em todo o mundo
No mesmo caminho de seus pares europeus, o governo de Obama, nos EUA, acaba de apresentar um orçamento que contém o “maior corte da história do país”. Ainda que a situação de luta esteja bem mais atrasada que na Europa, a recente mobilização no estado de Wisconsin e as do ano passado na Califórnia contra os cortes no orçamento estadual para a saúde e a educação públicas, que unificaram os trabalhadores destes setores com os estudantes e usuários, podem estar assinalando o fim da “tranquilidade”.
Nos primeiros anos do século XXI, vários países latino-americanos viveram processos revolucionários (Equador, Argentina, Venezuela, Bolívia). Auxiliados por uma situação econômica relativamente boa, os governos de frente popular ou populistas (como os de Chávez, Evo Morales, Correa e Lula) conseguiram controlar e barrar este processo. Mas essa “tranquilidade” também pode começar a ter problemas.
À superexploração soma-se agora a inflação, que deteriora o poder de compra dos salários. O governo de Evo teve que retroceder no “gasolinazo” (brutal aumento do preço dos combustíveis) diante da reação operária e popular. No “estável” Brasil da era Lula, agora com o governo de Dilma Rousseff, mais de cem mil trabalhadores da construção civil de obras públicas (um dos setores mais explorados da classe operária brasileira) fizeram uma duríssima greve contra as empresas construtoras (muito ligadas ao governo) com métodos muito radicais de incendiar os pavilhões dos canteiros de obras.
Todas essas lutas colocam a necessidade da unidade internacional dos trabalhadores. Uma unidade que esteve na origem do movimento operário e que foi a marca registrada dos primeiros esforços de organização dos trabalhadores. Lutas semelhantes explodem em diferentes partes do planeta e demonstram que é necessário retomar essa tradição que expressa o Primeiro de Maio e está presente hoje. A solidariedade internacional entre os trabalhadores é uma ferramenta para a própria luta, porque pode ser fundamental para derrotar a burguesia e arrancar conquistas. Por exemplo, na Europa, a unidade entre os trabalhadores do continente é uma necessidade para derrotar a União Europeia imperialista e os seus planos. E a vitória de uns ajuda o avanço dos trabalhadores de outros países em luta. Além disso, permite retomar e fazer avançar a consciência internacionalista da classe operária, que foi característica do surgimento do movimento operário.
A unidade nas lutas coloca outra questão profunda: no sistema capitalista, nenhuma conquista obtida com a luta é permanente. O sistema capitalista, em sua decadência e em busca do lucro, ataca para retirar e fazer retroceder as conquistas que concedeu em outros momentos. Assim aconteceu, por exemplo, com a jornada de 8 horas, a estabilidade de emprego, a idade de aposentadoria etc. Por isso, o capitalismo não pode ser mudado de forma gradual por meio de reformas. Essas reformas progressivas quase não existem hoje, mas se a burguesia as concede como consequência das lutas, amanhã mesmo vai atacar para eliminá-las. A conclusão é que é necessário mudar o sistema, superá-lo pela ação revolucionária, isto é, conquistar a emancipação dos trabalhadores.
“A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”
Em um dos seus textos mais importantes dirigidos à classe operária, o Manifesto Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels terminam com uma consigna que é, ao mesmo tempo, toda uma definição política: “A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”.
Com ela, queriam expressar que somente a classe operária seria capaz de levar até o final a luta contra o capitalismo e pela sua destruição, imprescindível para conduzir até o fim a luta pela emancipação da exploração e da opressão. E que, nessa luta, deveria ser autodeterminada, totalmente independente de qualquer variante política da burguesia, que sempre procuraria levar a classe operária a “reboque” de suas posições. O Primeiro de Maio como jornada de luta operária e socialista está profundamente imbuído desse caráter.
Nos últimos anos, essa proposta foi duramente questionada pela grande maioria da esquerda mundial, que abandonou a luta pela revolução socialista e pela emancipação da classe operária que, com diferentes sistemas teóricos e políticos, defendia em décadas anteriores. Um setor limita-se a postular a “humanização” do capitalismo e, para isso, a necessidade de se integrar plenamente nas instituições burguesas e nos seus governos. Outros afirmam que a saída é a proposta pelos setores burgueses populistas de esquerda, como Chávez na Venezuela, que saiu em defesa das sanguinárias ditaduras de Kadafi na Líbia e Assad na Síria.
A proposta da LIT-QI
De parte da LIT-QI, reivindicamos a fundo a consigna do Manifesto Comunista e afirmamos que ela está mais atual que nunca. Dizemos isso em um duplo sentido.
Em primeiro lugar, a classe operária está cada vez mais presente nas lutas, como mostram a resistência contra os ajustes na Europa e nos EUA, os processos revolucionários no mundo árabe, ou as greves contra a inflação e os “tarifazos” na América Latina. E, com sua luta, pode encabeçar uma aliança com os outros setores oprimidos e explorados, como os camponeses pobres, as massas urbanas não operárias e as nacionalidades oprimidas.
Em segundo lugar, é necessário retomar o internacionalismo operário. Em terceiro lugar, para acabar com a exploração, a fome, a miséria e o risco de destruição a que o capitalismo imperialista submete o mundo, é necessário uma revolução liderada pela classe operária, primeiro passo para a construção do socialismo. Não há como “humanizar” ou “reformar” o capitalismo.
A “mãe de todas as tarefas”
Os trabalhadores e as massas continuam mostrando um grande heroísmo em suas lutas. Basta ver, por exemplo, a combatividade que hoje vemos no mundo árabe. Mas o capitalismo imperialista e as burguesias nacionais associadas não vão se render “mansa e educadamente” perante essas lutas. Pelo contrário, como um leão que lambe suas feridas, respondem com ferocidade e recuperam o terreno perdido.
A revolução árabe e as lutas na Europa e no resto do mundo nos mostram a necessidade urgente da construção de uma direção revolucionária internacional, capaz de impulsionar e unificar essas lutas e levá-las até o seu triunfo definitivo (a derrota completa do imperialismo).
Esta é a “mãe de todas as tarefas”, que propomos a todos os lutadores operários e populares do mundo. Para nós, ela se concretiza na reconstrução da IV Internacional e suas seções, os partidos revolucionários nacionais. É nessa tarefa que a LIT-QI concentra todos os seus esforços.
Afirmamos, ao mesmo tempo, que a construção de uma direção revolucionária mundial não pode ser levada a cabo sem combater permanentemente todas as direções frentepopulistas, populistas, fundamentalistas, reformistas, “socialistas burocráticas”, que tentam desviar a luta dos trabalhadores e das massas para becos sem saída. E também sem combater os que, com qualquer argumento, capitulam a estas direções.
Baseados nesta experiência, temos um claro critério para nos posicionar em todas as lutas: estamos com os explorados e oprimidos contra os exploradores e os opressores. Por isso, estamos com os trabalhadores, a juventude e os povos árabes contra os seus ditadores e burguesias; estamos com o povo líbio contra Kadafi e contra a intervenção imperialista; estamos com a resistência afegã pela derrota dos invasores imperialistas; com o povo palestino contra Israel; com o povo haitiano para que expulse os “capacetes azuis” da ONU e os marines ianques; apoiamos os trabalhadores europeus contra os seus governos e patrões; os imigrantes em sua luta para conquistar plenos direitos políticos, trabalhistas e sindicais; as mulheres, os jovens e os que têm orientações sexuais diferentes, contra a opressão, a discriminação e a perseguição que sofrem no capitalismo.
Viva a revolução árabe!
Viva a luta da juventude e dos trabalhadores europeus!
Viva o internacionalismo operário! Viva a luta dos trabalhadores e dos povos de todo o mundo!
Pela derrota do capitalismo imperialista!
Viva a Revolução Socialista Internacional!
Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI)
São Paulo, 1º de Maio de 2011
Labels: 1º de maio, direito dos trabalhadores, Lit
Monday, March 28, 2011
Título Original: Abaixo a intervenção imperialista! Abaixo Kadafi! Viva a revolução árabe!
Escrito por LIT-QI
Seg, 21 de Março de 2011 19:37
Abaixo a intervenção imperialista no Oriente Médio e Norte da África!
Abaixo Kadafi e todas as ditaduras árabes!
Viva a revolução árabe!
O Conselho de Segurança da ONU votou uma zona de exclusão aérea para a Líbia. Essa medida é parte de uma resposta recente do imperialismo contra o processo revolucionário no Norte da África e no conjunto do Oriente Médio. Para o imperialismo, o avanço da revolução árabe é uma ameaça gravíssima, pois coloca em xeque um dos pilares centrais da ordem mundial: o lugar onde estão as fontes de petróleo e gás mais importantes do mundo. Também põe em perigo a existência do Estado de Israel, o agente militar do imperialismo no Oriente Médio.
Diante do fato de que as revoluções não cessam, ameaçando se estender inclusive para a Arábia Saudita, o imperialismo decidiu intervir militarmente e conter o processo a qualquer custo, antes que perca completamente o controle. Por isso, após uma discussão intensa e de indecisão, o imperialismo votou pela intervenção militar na Líbia. Esta é parte de um contra-ataque militar coordenado em várias frentes, assumindo diferentes formas, mas com o mesmo objetivo.
Em Bahrein, sede da Quinta Frota dos Estados Unidos, diante da ocupação da principal praça da capital pelas massas, que ameaçavam derrubar a monarquia, e devido à crise do exército do emir, incapaz de reprimir os protestos, o imperialismo resolveu intervir por meio das tropas da monarquia saudita e dos Emirados Árabes Unidos, seus agentes incondicionais. No Iêmen, está estimulando a feroz repressão do ditador Saleh, que só esta semana deixou mais de 40 mortos.
A zona de exclusão aérea na Líbia
Na Líbia, o imperialismo tomou a decisão de intervir militarmente com suas próprias forças e sob a cobertura da ONU, decretando uma zona de exclusão aérea que se converte em uma licença para a intervenção militar. Isso significa que as forças armadas dos países imperialistas, por meio da OTAN, estão autorizadas a atacar qualquer instalação militar na Líbia.
No entanto, preocupado com o profundo desgaste devido a suas intervenções no Iraque e na atual ocupação no Afeganistão, o imperialismo norte-americano tratou de buscar uma ampla frente para respaldar sua intervenção militar com os demais imperialismos da Europa, com a Rússia e a China, por meio do Conselho de Segurança da ONU, e inclusive com a Liga Árabe. Para isso, utilizou como desculpa o genocídio iniciado por Kadafi, visto por todo o mundo pela televisão, como massacres perpetrados pelo ditador. Mas se esse fosse o verdadeiro motivo, como explicar que, ao mesmo tempo, o imperialismo apoia as monarquias da Arábia Saudita e do Bahrein e o ditador do Iêmen, que estão reprimindo e assassinando os manifestantes desses países?
Qual o objetivo da intervenção imperialista?
É necessário deixar claro que o pretexto dessa intervenção militar, sob a cobertura da ONU, são os massacres de civis executados por Kadafi. Mas a verdadeira razão do imperialismo é se aproveitar da indignação generalizada contra o ditador e voltar a intervir militarmente de forma direta em uma região onde a revolução árabe está em pleno curso e reassegurar o controle dessa região em um ponto crítico: a Líbia.
O grau de radicalização do enfrentamento do povo líbio contra Kadafi é tão grande que o imperialismo intervém para evitar que a guerra civil se estenda e para impedir que a revolução árabe se radicalize ainda mais, seja no caso de vitória militar imediata de Kadafi, que abriria a possibilidade de uma guerra de guerrilhas, seja no caso de uma guerra civil prolongada em um país central para o fornecimento de petróleo e que poderia gerar movimentos de apoio e incendiar toda a região.
Com o mesmo cinismo com que apoiaram o ditador por anos e receberam-no nas capitais europeias com cerimônias de honra, as potências imperialistas passaram a adotar outra tática agora que a população se levantou em armas contra ele: retiraram seu apoio para impor uma saída que estabilize a situação e imponha seus interesses, como faziam com Kadafi, mas controlando a situação.
O que mudou para o imperialismo não foi o fato de que Kadafi passou a massacrar civis. Foi que explodiu uma revolução e uma insurreição armada contra o ditador apoiada pela maioria da população e o imperialismo precisa estabilizar a situação.
Mas existe uma preocupação do governo Obama com a situação política e o desgaste dos EUA com as ocupações do Iraque e do Afeganistão na região e que repercute fortemente nos Estados Unidos. Por isso, tratou de ampliar a frente imperialista e de buscar o apoio dos povos árabes, do líbio em especial, para essa intervenção. Daí também a importância de conseguir o apoio da Liga Árabe para a decisão de decretar a zona de exclusão aérea.
A reação dos insurretos
No início da insurreição, os rebeldes capturaram um helicóptero com oficiais ingleses que queriam negociar com eles, mas imediatamente os expulsaram. Havia uma clara hostilidade ao envolvimento do imperialismo na luta do povo líbio. O imperialismo esperou que essa situação mudasse, aproveitando-se de uma baixa no ânimo do povo líbio diante dos massacres e das derrotas militares que expressaram uma superioridade muito grande dos armamentos e equipamentos a favor de Kadafi. Contra os comitês populares com trabalhadores sem experiência no manejo das armas tomadas do exército regular estão as Brigada Khamis, divisões bem armadas e treinadas que combatem por Kadafi.
O imperialismo aproveitou-se de um momento na guerra civil em que havia uma ofensiva das tropas de Kadafi contra as cidades libertadas pelos rebeldes e em que estes perderam boa parte de suas conquistas e se sentiam cercados. Isso gerou uma atitude de expectativa por alguma ajuda externa ao povo líbio, ameaçado pelos massacres do ditador. Ao contrário dos primeiros momentos, em que os comitês populares rechaçavam a intervenção imperialista com cartazes e declarações, agora houve expressões de apoio popular à intervenção da ONU, à zona de exclusão aérea, que se refletiu inclusive com cartazes em Bengazi.
É preciso denunciar os dirigentes burgueses líbios da oposição que estão chamando o apoio às decisões da ONU. Grande parte destes dirigentes veio do governo de Kadafi, e agora chamam abertamente à intervenção militar imperialista com tropas terrestres. Isso demonstra como estão dispostos a servir de agentes do imperialismo e a trair a revolução líbia.
A LIT-QI está do lado da revolução líbia, contra Kadafi, apesar da posição pró-imperialista de vários dirigentes da oposição. E queremos alertar os manifestantes de Bengazi: essas tropas imperialistas, assim que entrarem na Líbia, serão os novos ocupantes do país, e a primeira medida que tomarão será desarmar os comitês populares para garantir que o governo que fique no país atenda a seus interesses. Mesmo que sejam tropas da ONU sua tarefa será essa, e quem se opor será reprimido.
A presença de tropas estrangeiras servirá para dar ao imperialismo o controle sobre a Líbia, como o que impôs no Iraque e no Afeganistão. A prova disso é o seu apoio à repressão sangrenta no Bahrein e no Iêmen, que tem a mesma razão de fundo: impor uma estabilização de acordo com seus interesses. Por isso, somos completamente contra essa intervenção e chamamos os insurretos a repudiá-la e a combatê-la. A realidade coloca dois inimigos a serem combatidos: Kadafi e o imperialismo, que vem controlar o país com um discurso humanitário e de “paz". Além disso, a intervenção serve de desculpa para Kadafi se apresentar como vítima e “defensor da soberania nacional”.
Duas polêmicas
Neste momento, encontramos dois tipos de posições na esquerda que devem ser combatidas duramente. Ao redor de Fidel Castro, Daniel Ortega e Chávez, os “amigos de Kadafi”, armou-se uma posição que afirmava ser necessário apoiar Kadafi porque o imperialismo está contra o ditador por ele ser antiimperialista. Mas isso é completamente falso: o imperialismo sustentou Kadafi, vendeu-lhe armas e treinou seus soldados nos últimos anos. Além disso, Kadafi disse aos governos imperialistas, reiterando durante os confrontos, que ele poderia continuar garantindo os interesses do imperialismo em relação ao petróleo, continuar combatendo o terrorismo da Al Qaeda em colaboração com as potências imperialistas e continuar colaborando com uma polícia avançada da União Europeia para impedir que os imigrantes ilegais da África chegassem à Europa.
Kadafi, que no passado, assim como a direção cubana e a sandinista, teve sérios enfrentamentos com o imperialismo (hoje é seu sócio), está reprimindo com sangue essas mobilizações, a tal ponto que provocou uma guerra civil.
Mas Fidel Castro, Hugo Chávez e Daniel Ortega estão do lado do genocida Kadafi nesta guerra. Esses dirigentes que se dizem representantes da esquerda continuam defendendo um carniceiro que era amigo do imperialismo. Chegam a negar ou duvidar (falam de guerra midiática) que tenha havido ataques contra os civis e massacres que foram vistos em todos os meios da imprensa mundial, por internet, e as fotos transmitidas etc. Mas o próprio Kadafi confirmou os ataques com um comentário cínico de que “fazia o mesmo que Israel em Gaza”, isto é, massacres genocidas contra a população civil. O fato é que foi Kadafi e sua prática genocida que deu argumentos para o imperialismo intervir militarmente.
Alguns defensores desse tipo de posição dizem que a decisão do Conselho de Segurança confirma sua análise, mas é necessário ver além das aparências: se agora todas as potências imperialistas resolvem intervir, com o consentimento da Rússia e da China, é justamente para garantir os acordos que tinham com Kadafi e que ele, por mais que se disponha em mantê-los, já não é uma garantia.
A outra posição na esquerda é uma grave capitulação ao imperialismo. Referimo-nos àqueles que saúdam a intervenção do imperialismo “em defesa dos civis” ou “para parar o massacre”. Alguns se limitam a apoiar a zona de exclusão aérea já aprovada, outros inclusive apoiam que o imperialismo intervenha com tropas de paz. Esses setores confiam que as tropas da ONU são a paz. O argumento em geral é que, para frear o massacre, é necessário apelar para as instituições internacionais.
Quem propõe como saída à intervenção imperialista se esquece do papel da ONU no Afeganistão, na Palestina, no Iraque e em todas as ocupações supostamente “humanitárias”. São aqueles que vêm em Obama um rosto humano por mais que continue ocupando o Afeganistão e o Iraque e bombardeando o Paquistão.
Essa posição é tão nefasta que leva os trabalhadores a apoiarem uma intervenção imperialista na Líbia, que será a base para a ocupação e a opressão do povo líbio e um ponto avançado para atacar o conjunto da revolução árabe. Ao contrário, é necessário fazer uma forte campanha nos países imperialistas contra o envio de tropas, desmontando a campanha que estão fazendo para justificar sua intervenção militar, e nos mobilizar contra os governos que participam dos planos de ocupação.
A saída: a revolução árabe
A intervenção militar imperialista serve para enterrar a revolução. O campo da revolução deve enfrentar esta intervenção, pois o novo ocupante reprimirá todo aquele que se oponha a ocupação.
Temos que recordar às massas líbias que sua revolução é parte da revolução árabe e por isso conta com um grande apoio no Norte da África, Oriente Médio e dos trabalhadores de todo o mundo, em especial da Europa, onde a relação é muito estreita pela presença de uma forte comunidade imigrante árabe e do Norte da África. E é aí, entre os trabalhadores e o povo, que estão as fontes de apoio que devem ser buscadas. Mas é necessário transformar essa solidariedade, com que a revolução líbia conta em todo o mundo árabe, em força de combate para derrotar a Kadafi pela ação de massas de toda a região, sendo a mais ampla possível. É preciso chamar a mais ampla solidariedade com a revolução. Nos países árabes a primeira tarefa é exigir dos governos que retirem o apoio à intervenção imperialista aprovado pela Liga Árabe. É preciso chamar a solidariedade ativa das massas árabes por meio do envio de armas e voluntários para combater essa ditadura assassina.
Em particular nos países onde a revolução teve um forte desenvolvimento e que são vizinhos da Líbia, como Egito e Tunísia, é necessário denunciar esses governos por sua posição atual e exigir que retirem o apoio à intervenção votado pela Liga Árabe, e que rompam com o ditador Kadafi, facilitando o envio de apoio em alimentos, remédios e armas aos rebeldes.
O exemplo da guerra civil espanhola e da nicaraguense, para derrubar Somoza, demonstrou que quando se trata de uma guerra civil em que de um lado está uma ditadura assassina e de outro o povo em armas, é possível que ativistas de todo o mundo se somem para combater do lado da revolução, como brigadas internacionalistas de apoio. Especialmente no mundo árabe, que vive uma revolução, é possível organizar milhares e milhares de trabalhadores e jovens para lutar contra essa ditadura sanguinária. Essa organização deve estar pronta para combater qualquer intervenção imperialista que tente dominar o país e que possa esmagar a insurreição.
Também é urgente o apoio à revolução no Bahrein e no Iêmen. A revolução árabe é um processo único, o resultado em cada um dos países influenciará no desenlace do conjunto do processo. O futuro da revolução egípcia e tunisiana também será decidido aí.
- Não à intervenção imperialista!
- Não à zona de exclusão aérea sob o controle da ONU!
- Não ao envio de tropas imperialistas à Líbia, sejam da ONU, da OTAN ou de outros países!
- Fora as tropas sauditas e dos Emirados do Bahrein!
- Abaixo Kadafi! Todo o apoio à insurreição líbia!
- Abaixo a monarquia de Bahrein, a ditadura do Iêmen e todas as ditaduras árabes!
- Todo apoio à revolução no Iêmen e no Bahrein!
- Viva a revolução árabe!
Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional
Fonte: Site da Lit
Labels: imperialismo, Líbia, Lit, PSTU
Saturday, February 26, 2011
Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI)
Kadafi abriu as portas para o imperialismo e acumulou bilhões de dólares
Para entender o papel de Kadafi, são necessárias algumas referências históricas. Na decomposição do império otomano, no começo do século XX, a Líbia foi invadida pela Itália (1912), dividindo o país em duas administrações coloniais separadas: Cirenaica, no oriente, e Tripolitania, no ocidente. A Itália se manteve na região até a Segunda Guerra Mundial. Depois da guerra, o imperialismo e Stalin entram em acordo sobre a independência do país (1951) e impõem como rei Idris I, vindo das tribos cirenaicas e claramente submetido às potências imperialistas.
Em 1969, o coronel Muamar Kadafi, vindo de uma tribo beduína da região de Tripolitania, encabeça um golpe de Estado com uma ideologia nacionalista pan-árabe. Em 1977, seria fundado o Yamahiriyya (Estado de Massas) Socialista Árabe da Líbia, um regime totalitário, apoiado nas forças armadas e em acordos intertribais, mas que se une aos demais governos da região – especialmente Iraque e Síria – que repudiam os acordos de el-Sadat com os Estados Unidos e Israel.
Isto transformou o regime líbio num dos mais odiados pelo imperialismo. Em 1986, Ronald Reagan ordena o bombardeio das duas principais cidades do país, Trípoli e Bengasi. Em resposta, Kadafi promoveu uma série de atentados terroristas, incluindo, em 1988, uma bomba num avião da Pan American que explodiu sobrevoando a localidade de Lockerbie na Escócia.
Porém, em 2003, cada vez mais isolado em sua política, Kadafi fez um acordo com o imperialismo que incluiu assumir a responsabilidade pelo atentado sobre Lockerbie e uma abertura gradual das reservas líbias para as petroleiras multinacionais, entre elas Shell, British Petroleum, ENI italiana, Total francesa e a Wintershal alemã. Entre as empresas ianques estão Occidental Petroleum Corp e ConocoPhillips e Marathon Oil Corp.
A entrega deu um novo salto com os acordos de Kadafi com o governo de Berlusconi. O jornal El País (22/2/2011) informa que “desde que, há dois anos, Il Cavaliere e o Coronel firmaram o Tratado de Amizade, Associação e Cooperação, os negócios bilaterais já superam os 40 bilhões de euros anuais e alcançam todos os setores cruciais, da energia ao financeiro ou à construção, sem faltarem os acordos militares e de inteligência.”
De sua parte, Kadafi, como parte da comissão e intermediário dos investimentos imperialistas, enriqueceu de forma obscena. Kadafi possui bilhões de dólares em investimentos em empresas europeias como a Fiat.
O imperialismo voltou à Líbia pelas mãos de Kadafi
Como tantos outros regimes do Oriente Médio e do terceiro mundo em geral – na América Latina são notórias as guinadas pró-imperialistas de partidos e movimentos, como o Peronismo na Argentina, o PRI no México e o MNR boliviano –, o da Líbia, apoiado nas forças armadas, passou de adversário e da resistência ao imperialismo a transformar-se em seu agente direto.
Kadafi tem a particularidade de ter permanecido quarenta anos à frente do país, pelo qual o mesmo incorpora em sua biografia pessoal o caminho de ida e de volta nas relações com o imperialismo.
Isso poderia acontecer, inclusive, com governos que hoje têm uma forte retórica antiimperialista ou, ainda, que aplicam algumas medidas que se chocam com os interesses imediatos do imperialismo, como Chávez na Venezuela e Ortega na Nicarágua. Nesses dois regimes, já apareceram traços similares aos de Kadafi na Líbia: na Venezuela, estão as multinacionais petroleiras, em ambos países latino-americanos há uma corrupção enorme e seus governos promovem o surgimento de grupos econômicos burgueses favorecidos pelo Estado. Portanto, estes governos poderiam dar um giro pró-imperialista como aconteceu com Kadafi.
Este texto é parte da revista Correio Internacional nº 4, 2011.
fonte: Site do PSTU, clique nas letras azuis e visite.
Labels: imperialismo, Lit, Revolução Arabe
Tuesday, February 15, 2011
LIT-QI: Mubarak caiu! Grande Triunfo da Revolução no Egito! Contra a transição impulsionada pela burguesia e o imperialismo, continuar as mobilizações!
Declaração da Liga Internacional dos Trabalhadores sobre a revolução no Egito que derrubou o ditador Hosni Mubarak
A gloriosa revolução egípcia deu um exemplo histórico a todos os povos do mundo e um novo e decisivo passo na expansão da revolução árabe. Hosni Mubarak, o ditador odiado e o mais importante agente do imperialismo e de Israel na região foi obrigado a sair pela ação determinada das massas durante 18 dias consecutivos. A derrubada desse ditador é, por isso, um enorme triunfo das massas egípcias e árabes.
Comemoração nas ruas do Cairo após a queda de Mubarak
A revolução colocou o regime contra a parede
O centro desse gigantesco processo esteve na Praça Tahrir (ou Libertação) no centro da capital, Cairo, que se converteu no centro dos protestos que percorreram todo o país. Milhões de egípcios exigiram “Fora Mubarak” e o regime. A ocupação da praça se tornou a expressão do poder do povo mobilizado, , em oposição ao regime e a suas instituições que não conseguiam mais governar. O governo mandava acabar com a ocupação da praça e ninguém obedecia; decretou toque de recolher, mas as massas não lhe davam ouvidos. O processo galvanizou o país inteiro, e pudemos ver as massivas manifestações nas grandes cidades como Alexandria, Suez, Port Said e se estendendo a todos os cantos do país.
Com o país paralisado, o governo orquestrou uma tentativa contra-revolucionária de ataque violento contra os manifestantes, com o objetivo de derrotá-los e esvaziar a Praça Tahrir. Apesar da passividade do Exército e da covardia de um ataque de bandos armados contra manifestantes desarmados, os ocupantes da Praça Tahrir não se deixaram intimidar e expulsaram corajosamente os bandos do regime, compostas por policiais e mercenários.
Ao mesmo tempo em que perpetrava este ataque contra o movimento revolucionário, o governo chamou ao diálogo as forças de oposição toleradas e com a participação dos seguidores de El Baradei e da Irmandade Muçulmana. Apesar de estas forças não terem chegado a acordo com o regime, a sua participação significou de fato a legitimação de uma tentativa de transição negociada. Como resultado foram apenas anunciadas "reformas constitucionais" até as eleições de setembro e promessas de "concessões" vazias. As massas não acreditaram nessas manobras e continuaram exigindo a imediata saída de Mubarak, mantendo a ocupação da Praça no Cairo e principais cidades do país.
Já nos últimos dias a classe operária e os trabalhadores começaram a intervir de forma decisiva com sua mais poderosa arma: a greve. Expressão disso foi a entrada em cena dos trabalhadores do canal de Suez, dos trabalhadores da saúde e dos transportes no Cairo, bem como dos trabalhadores das telecomunicações. Até mesmo os trabalhadores de órgãos de imprensa como o Al Ahram resolveram parar contra o regime. Esta onda de greves que juntava reivindicações por melhores condições de vida, com a exigência de saída de Mubarak, foi paralisando a economia egípcia de forma cada vez mais comprometedora para os interesses da burguesia nacional e internacional. Os trabalhadores demonstravam assim, que enquanto Mubarak estivesse no poder eles iriam até o limite para conseguir o que queriam.
Frente a tudo isto, o Exército foi incapaz de reprimir diretamente as mobilizações e se manteve assistindo as marchas massivas e a ocupação da Praça. O contato constante dos soldados e baixa oficialidade com os manifestantes aprofundaram os elementos de crise no Exército, o que foi tornando cada vez mais perigosa uma possível ordem da cúpula de repressão em massa, que poderia ter como resultado imediato a divisão do Exército frente à força revolucionaria do povo egípcio.
Ativista egípcio carrega bandeira manchada de sangue
Mubarak é obrigado a renunciar
Frente à insustentável manutenção de Mubarak, o imperialismo começou a procurar articular uma "transição segura", que garantisse um "governo leal", cuja tarefa fosse "estabilizar" o país, mantendo as instituições centrais do regime, com algumas concessões democráticas. O imperialismo apostou na cúpula do Exército para levar a cabo essa tarefa, tendo em conta a sua ligação orgânica ao imperialismo, a sua importância como pilar fundamental do regime e força repressiva, e também pelo certo prestígio que ainda mantinha entre as massas.
Após vários anúncios que apontavam no sentido da renúncia na noite de 10 de fevereiro, Mubarak fraudou a expectativa da nação com um discurso que, em que em vez de anunciar seu retiro, anunciava a sua manutenção no poder com a transmissão de alguns poderes para Suleiman.
A reação furiosa da população na Praça Tahrir no Cairo e em todo o país apontava a uma radicalização dos protestos que se esperavam ainda maiores para o dia 11. Na mesma noite, os manifestantes cercaram espaços centrais como o palácio presidencial e estação estatal de TV, que estavam protegidos pelo Exército. Esta situação se foi tornando cada vez mais alarmante, particularmente para a cúpula das Forças Armadas, pois colocava a possibilidade real de enfrentamentos dos manifestantes com os organismos de segurança. Tendo em conta os importantes elementos de crise no Exército, não havia qualquer garantia que uma tentativa de tomada destes edifícios pela população pudesse ser freada pelos soldados.
Com a ampliação massiva dos protestos e a perda definitiva do controle por parte do regime, Suleiman foi obrigado a vir à televisão para anunciar telegraficamente a renúncia de Mubarak e a entrega da condução do país ao Comando Central do Exercito. A saída de Mubarak foi uma conquista enorme, imposta pelas mobilizações das massas e por isso sentida com enorme alegria e emoção.
O centro do acordo é a estabilização burguesa através do Exército
Compartilhamos a enorme e justa alegria que perpassa as massas egípcias e de todo o mundo por haver se livrado de um ditador assassino e corrupto. Mas queremos fazer um alerta: o Comando do Exército egípcio que assumiu o poder, aparecendo como uma suposta mudança frente à liderança de Mubarak, sempre foi a espinha dorsal da ditadura egípcia.
Na verdade, o alto comando do Exército é proprietário de várias empresas em diferentes setores da economia (controlando cerca de 30 a 40% da economia do país), tendo-se enriquecido à sombra da ditadura, à custa da fome e miséria do povo.
Além disso, o Exercito é o pilar central do regime de Mubarak e cumpre um papel fundamental como aliado estratégico dos EUA e Israel na região, que se expressa diretamente na ajuda militar de cerca de 2 bilhões de dólares anuais dos EUA a esta instituição.
Pôde se ver esse papel das Forças Armadas quando deram cobertura às hordas pró-Mubarak, ao permitir que entrassem na praça para espancar manifestantes nos dias 2 e 3 de Fevereiro. Com a crise provocada pelo curso da revolução, a cúpula militar tenta agora assumir diretamente o processo, livrando-se da figura incômoda de Mubarak para manter seus privilégios e nenhuma mudança significativa no país. A maior expressão disso é a indicação de Mohamed Hussein Tantawi, Ministro da Defesa dos últimos 20 anos de Mubarak, para encabeçar o novo governo até as próximas eleições.
A política que o imperialismo em conjunto com o Exército quer impor àqueles que se mobilizaram durante 18 dias para tirar Mubarak e acabar com a ditadura é a aceitação uma abertura democrática controlada, em que os principais pilares do regime repressivo se mantêm, e que se garante o cumprimento dos acordos políticos, econômicos e militares com o imperialismo e particularmente com Israel.
Nesse processo de abertura controlada, os setores da oposição burguesa preparam-se para cumprir um papel fundamental. Nesse sentido, o setor encabeçado por El Baradei e a Irmandade Muçulmana já deram declarações favoráveis para compor com os militares um governo de unidade nacional que permita uma transição negociada até as próximas eleições e aceitam que se mantenham os acordos com o imperialismo e Israel.
Manifestante sobe em tanque de guerra durante protesto
Só a mobilização independente das massas pode levar adiante a revolução egípcia!
A grande vitória alcançada pela revolução egípcia com a derrubada de Mubarak é apenas o começo e não o fim da luta contra opressão do povo daquele país.
O imperialismo e a burguesia egípcia estão tentando impedir que o povo alcance uma vitória maior do que aquela que já conseguiu, evitando que a ruptura com o anterior regime se estenda. A maior expressão disso é que a proposta de novo governo é encabeçado por um homem estreitamente ligado a Mubarak e de plena confiança do imperialismo americano. A cúpula do exército, comprometida em todos esses anos de ditadura, não vai querer que se punam os crimes, que se julguem e prendam os repressores e torturadores, nem que se firam os interesses econômicos dos grupos que floresceram à sombra de Mubarak. Não vai querer a liberdade para que se possam denunciar os crimes da ditadura nem para que os trabalhadores tenham liberdade sindical e direito de greve que ameaçariam os lucros fabulosos desses grupos aos que a eles são vinculados. Um governo integrado pelos homens de Mubarak é um obstáculo à revolução!
A ditadura matou e torturou milhares de opositores. Durante os 18 dias de mobilizações, 300 manifestantes perderam a vida. Para romper de vez com a era Mubarak é preciso, por isso, dissolver os aparatos repressivos que mantiveram pelo terror 30 anos de ditadura e punir os responsáveis pelas prisões, torturas e mortes daqueles que lutaram pelos seus direitos. Pela dissolução de todos os aparelhos repressivos! Punição a todos os responsáveis pelas torturas e mortes.
É necessário também continuar a mobilização para garantir imediatamente a libertação de todos os presos políticos e totais liberdades de associação sindical, de organização partidária e imprensa.
Sabemos que há uma divisão de classe nas fileiras do Exército. A confraternização e a incapacidade dos soldados e oficialidade média para reprimir as mobilizações são expressão disso. É necessário que os soldados e a oficialidade média tenham as mais amplas liberdades democráticas para se organizarem de forma independente das suas cúpulas, e se juntar às reivindicações e anseios da classe trabalhadora egípcias que não são os do imperialismo nem os dos generais de Mubarak.
Pela dissolução imediata do Parlamento fraudulento!
Para acabar com o regime de Mubarak, não basta fazer reformas parciais na Constituição, como estão propondo o novo governo e a oposição burguesa! Pela convocatória de uma Assembleia Constituinte soberana com plenos poderes, sem ninguém que tenha sido parte dos organismos do regime de Mubak! Assembleia constituinte para romper os acordos com o imperialismo, para expropriar os bens de Mubarak e do conjunto do antigo regime, e construir um Egito socialista ao serviço dos trabalhadores e do povo!
A opressão do povo egípcio não se resume à ditadura e está ancorada na exploração e desemprego que condenam à fome e à miséria a maioria da população. A revolução não coloca em causa somente o atual regime, mas afeta diretamente o imperialismo dominante, sendo objetivamente uma revolução operária e socialista.
Para uma ruptura de fundo com o antigo regime é, por isso, fundamental romper os pactos militares e políticos com o imperialismo e Israel. Fora o imperialismo do Egito! Pela imediata e plena abertura da fronteira com a Faixa de Gaza!
Por um aumento imediato e geral dos salários que corresponda ao custo da cesta básica! Por um plano econômico de emergência e a redução imediata da jornada de trabalho sem redução de salário de forma a garantir trabalho para todos! Pela expropriação das grandes empresas nacionais e multinacionais e do sistema financeiro!
A única forma de garantir os anseios da juventude é a continuidade da revolução
A condição indispensável para cumprir os anseios das massas de construir um novo Egito, é que as mobilizações independentes continuem. Foram as mobilizações das massas e não o Exército que derrubaram Mubarak. Chamamos por isso as massas egípcias a não depositarem o destino da sua revolução nas mãos do Exército e a confiarem nas suas próprias forças.
A juventude, que cumpriu um papel extraordinário na vanguarda dessa mobilização e mostrou um heroísmo ao permanecer na praça todos esses dias apesar da repressão, deve continuar organizada e exigir as conquistas! A classe trabalhadora, além de estar no centro do combate contra Mubarak, já mostrou que pode parar o país.
A partir da vitória dos que ocuparam e mantiveram a Praça Tahir, está colocada a necessidade de continuar e impulsionar a mobilização e organização independente dos trabalhadores e jovens, de chamar um encontro urgente dos trabalhadores e do povo que discuta um programa o serviço das massas, oposto ao da cúpula militar e ao da oposição burguesa, e tome o poder em suas mãos para levá-lo a cabo.
É preciso desenvolver a revolução árabe!
Depois da Tunísia, a revolução árabe teve um grande triunfo com a derrubada de Mubarak. Vamos estendê-la a toda a região! Pela derrubada das demais ditaduras e monarquias reacionárias do mundo árabe e do Oriente Médio!
Mubarak foi um esteio da ordem imposta pelo imperialismo na região, cujo centro é o Estado de Israel. A revolução árabe não será triunfante enquanto o Povo Palestino estiver sob o tacão de Israel. Todo apoio ao Povo Palestino! Pela destruição do Estado de Israel!
Esse processo revolucionário tem também como desafio enfrentar os regimes ditatoriais teocráticos, como o Irã, que reprimiu durante as mobilizações contra a fraude ano retrasado e que mantém a exploração do seu povo, apesar do choque eventuais com o imperialismo.
A revolução árabe coloca na ordem do dia recuperar a unidade da nação árabe na perspectiva de construir uma grande Federação das Repúblicas Socialistas Árabes!
São Paulo, 11 de Fevereiro de 2011
LIT-QI: Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional
